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  • Cosme Alves

A Melhor "Coadjuvante" de Agatha Christie


(Recorte da capa do livro Um Banquete para Hitler)

"Uma amiga de Miss Marple está a caminho do interior da Inglaterra quando percebe uma cena que a deixa transtornada. No momento em que um trem passa paralelo ao dela e, por alguns momentos as janelas se encontram, Elspeth vê um homem estrangulando uma mulher. Acontece que quando ela denuncia as autoridades na estação, ninguém acredita nela porque nenhum corpo é encontrado".


(Testemunha Ocular do Crime, Agatha Christie / 2010)

Esse é a deixa para que sua amiga Miss Marple comece a colocar sua “massa cinzenta”, como diria Poirot, para funcionar. As duas senhoras fofocam sobre as possibilidades de um assassinato ter ocorrido de verdade e tentam dissuadir as autoridades.

No entanto, o que me chamou muito mais a atenção nesse romance de Agatha foi mais uma personagem coadjuvante que entra na história logo no capítulo 4: Lucy Eyelesbarrow.  Ela é descrita como “graduada em Matemática pela Oxford e conhecida pelo intelecto aguçado. (...) revestida de invejável capacidade acadêmica (...) era puro bom senso.”. No entanto, com um currículo invejável, o bom senso predominava e ela sabia que lecionar não traria tanto dinheiro quanto os serviços domésticos na Inglaterra naquela época, e nisso ela investiu.


Quando Lucy Eyelesbarrow entra por uma porta, preocupações, angústias e trabalho suado saíam pela outra” e foi por isso mesmo que Miss Marple a telefonou solicitando seus serviços. Ela estava cheia de trabalho, mas a Sra. Marple havia dito que era um trabalho incomum, e esta palavra fez toda diferença para Lucy.

Quando as duas se encontram, que a meu ver é um dos melhores diálogos da trama, há a revelação do trabalho:


“- É bastante simples. - comentou Miss Marple – Incomum, mas simples. Encontrar um cadáver.”


E com uma destreza de quem sabe de tudo e como arranjar as coisas, Lucy une-se a Miss Marple numa busca para ajudar a amiga da detetive amadora. Sendo do tipo que viaja para onde tem que ir, pergunta o que tem que perguntar e não tem medo do trabalho duro, Lucy se torna uma “protagonista” na história de Miss Marple.


Mary Poppins chega pelo ar voando no seu guarda-chuva para solucionar os problemas, Matilda é uma babá que aparece para educar crianças incontroláveis usando um pouco de magia. Lucy me lembrou, e muito, elas duas, pois parece que não há nada impossível para ela.


O romance já teve várias adaptações para a TV e o Cinema, alguns sofreram mudanças admiráveis, outros mantiveram Lucy como a profissional perfeita como é apresentada no livro. Só sei que foi uma das melhores sensações que senti ao ler Testemunha Ocular do Crime, por mais que eu prefira Miss Marple à Poirot, nesse romance quem rouba todas as cenas é Lucy e faz isso da forma mais espetacular possível.


O The Times classificou a história como "uma história de detetive perfeita. Não há um só momento entediante" e, claro, como ávido leitor de Agatha, tenho que concordar. Este é um dos romances que li mais rápido justamente pela agilidade da trama, merecidamente atribuída à Lucy. 

*OBSERVAÇÃO: Neste livro, Lucy faz sua marcante, porém, única aparição em toda a obra de Agatha.


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